Magnien, O abecedário de Michel de Montaigne, "Poesia"
Poesia
"Voici merveille : nous avons bien plus de poètes, que de juges et interprètes de poésie. Il est plus aisé de la faire, que de la connaître. À certaine mesure basse, on la peut juger par les préceptes et par art. Mais la bonne, l’excessive, la divine est au-dessus des règles et de la raison. Quiconque en discerne la beauté d’une vue ferme et rassise, il ne la voit pas, non plus que la splendeur d’un éclair. Elle ne pratique point notre jugement ; elle le ravit et ravage. La fureur qui époinçonne celui qui la sait pénétrer, frappe encore un tiers à lui ouïr traiter et réciter ; comme l’aimant non seulement attire une aiguille, mais diffuse encore en elle sa faculté d’en attirer d’autres. […] Dès ma première enfance, la poésie a eu cela, de me transpercer et transporter. Mais ce ressentiment bien vif qui est naturellement en moi, a été diversement suscité par diversité de formes, non tant plus hautes et plus basses (car c’étaient toujours des plus hautes en chaque espèce) comme différentes en couleur : premièrement une fluidité gaie et ingénieuse ; depuis une subtilité aiguë et relevée ; enfin une force mûre et constante. L’exemple le dira mieux : Ovide, Lucain, Virgile."
Poesia
"Vede que maravilha: temos muito mais poetas do que juízes e intérpretes de poesia. É mais fácil fazê-la do que conhecê-la. Em uma certa medida inferior, podemos julgá-la pelos preceitos e por arte. Mas a boa, a excelente, a divina está acima das regras e da razão. Quem discernir-lhe a beleza com olhar firme e sereno não a verá, não mais que ao fulgor de um relâmpago. Ela não seduz nosso julgamento: arrebata-o e devasta-o. O delírio que espicaça aquele que a sabe penetrar atinge ainda um terceiro que a ouve ser interpretada e recitada, como o ímã não apenas atrai uma agulha mas ainda infunde nela sua faculdade de atrair outras. [...] Desde minha primeira infância a poesia teve em mim o efeito de me transpassar e transportar. Mas esse sentimento muito vivo que existe naturalmente em mim foi sendo manejado diversamente pela diversidade de formas, não tanto mais elevadas e mais inferiores (pois eram sempre as mais elevadas de cada espécie) como diferentes no colorido: primeiro, uma fluidez viva e engenhosa; depois, uma sutileza aguda e apurada; por fim, uma força madura e constante. O exemplo falará melhor: Ovídio, Lucano, Virgílio."
(I, 38, Do jovem Catão, p. 346)
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